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Texto publicado no catálogo da exposição SLEEPING BEAUTY de GRAÇA MARTINS na
Galeria São Mamede, Lisboa, 2004 |
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O QUE ESTÁ DEBAIXO DA PELE - LAURA CASTRO |
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Graça Martins afirma:"O
exercício da pintura nos dias que correm já só interessa se o resultado final
exceder a própria pintura".Esta frase modelar –
em que o trabalho apresentado nesta exposição claramente se revê, apesar
da simples aparência de superfície pintada – rejeita a ideia de que a pintura
evolui em circuito fechado, voltada para dentro e enredada nas suas preocupações
mais específicas. Daí a actualidade do trabalho agora apresentado que consiste,
tanto numa declaração estética – de que a pintora não abdica nunca – quanto numa
investigação sobre padrões de vida e paradigmas sociais e culturais, trabalho
que encontra, no contexto internacional, idênticas pesquisas desenvolvidas,
especialmente, desde os anos 80. Uma intensa produção de cunho feminista
procurou trazer à superfície do discurso académico ou de vulgarização
jornalística, os contributos sucessivos das mulheres nos domínios da criação
artística, da crítica de arte e dos ensaios de história da arte, revalorizando a
sua presença mas, acima de tudo, questionando a sua ausência.
A obra de Graça Martins dá
visibilidade aos fenómenos da feminilidade, não de um ponto de vista da
diferença absoluta – impondo o biomorfismo exclusivo do feminino, peças
viscerais e orgânicas, quase iconoclastas, por não admitirem imagens da mulher
habitualmente aceites; nem de um ponto de vista de anulação dessa diferença –
sugerindo que nada há na mulher que verdadeiramente a distinga do homem (o que
leva a caricaturas ridículas); mas de um ponto de vista complexo que visa
analisar como se atingiu, e como se mantém, um arquétipo de feminino
absolutamente artificial e que só perversamente se diz decorrer da “natureza”.
Ou seja, a sua obra visa debater como se ofuscou qualquer alternativa a esta
receita. Sendo certo que – será necessário repeti-lo? – dentro dos conceitos
mais divulgados está o que assimila masculinidade/humanidade e
feminilidade/materialidade carnal. E tomando como certo – será necessário
repeti-lo? – que a biologia determina o sexo mas a cultura determina o género.
O seu trabalho prefere as
figurações aparentemente soft e inofensivas, onde a face do feminino se
adequa, em grande parte, à imagética socialmente normalizada. A sua
representação visual do mundo urbano feminino engloba a representação social
desse mundo, particularmente das adolescentes como indicia o título “Urban
Teenagers”, motor desta problemática.
É agora necessário fecharmos um
pouco mais o plano aproximando-nos do que realmente interessa abordar, as telas
elaboradas no decurso dos últimos anos. O termo, de ressonância cinematográfica,
é pertinente porque Graça Martins prefere os grandes planos, através dos quais
se corresponde com áreas que muito lhe interessam, as do cinema, da publicidade
e da moda, de onde importa modelos, poses, atitudes divulgadas até à exaustão,
como vulgata de sedução e sucesso, de vergonha e fracasso. A apropriação de
imagens de uma cultura visual abrangente, erudita ou popular, permite discutir o
alcance formador e formatador dessa vulgata. Para lá do efeito de pose, outras
peças estão elaboradas em torno do tópico da comunicação ou da impossibilidade
dela, num mundo repressor – casos de “Silence” ou de “Don’t Speak” em que o
sinal silenciador do mundo feminino é declarado; casos de “Don’t forget me” ou
“The Key” em que o apelo à comunicação vem sob a forma simbólica de um maço de
cartas e uma moldura de chaves, respectivamente.
A importância que o olhar, fonte
de diálogo e de sedução, adquire em número significativo de obras, converte-o
num dos principais veículos de comunicação de toda a exposição, cujo paradigma
pode ser a obra “The Look”, mas de que há vestígios em muitas outras. Se o olhar
tem categoria de símbolo neste projecto de Graça Martins, a pintora não esqueceu
outros elementos utilizados de forma icónica: a romã, as botas ou os sapatos
constituem outros tantos factores de comunicação associados a contextos e
conceitos que pertencem às histórias infantis e aos livros de leitura, onde se
encontram também “As Tarefas” educacionalmente pré-definidas como masculinas ou
femininas.
Coerentemente com a ideia de uma
feminilidade construída, Graça Martins integra no seu trabalho, por vezes
através da colagem, um conjunto de marcas memoriais, elementos de recordação,
fotografias, figurinhas dos manuais escolares, rótulos dos discos antigos,
flores abertas a meio caminho entre o desabrochar e a morte, marcas de um papel
social longamente sedimentado.
Na obra de Graça Martins, que a
própria admite ser de qualidade aquática, de transparência luminosa, de
figuração virtuosa, de suavidade táctil, na sua obra – com todas as
características que acabam de lhe ser reconhecidas – não há, afinal, qualquer
transparência.
A sedução que conscientemente explora é uma mera estratégia de
caça, um rito propiciatório que atrai o observador desprevenido e o obriga a
reflectir, a perceber o que está debaixo da pele, a despertar essa beleza
adormecida, a procurar o que é anterior e posterior a uma existência no
feminino.
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UMA ESTÉTICA DO PRESSÁGIO -MARIA LEONOR BARBOSA SOARES
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Texto publicado no catálogo
da exposição 25 ANOS
DE PINTURA de GRAÇA MARTINS na Galeria Alvarez, Porto,
2002 |
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The Profundis |
O trabalho de Graça Martins
desenvolve-se tendo o desenho como base de um sistema de expressão em que o
símbolo se adivinha na ordenação das
estruturas.
O desenho selecciona detalhes
da realidade ( a recordação de uma textura, de um tecido, da pele...)
construindo articulações de sentidos ao mesmo tempo que configura estruturas
rítmicas. Trabalho em superfície, a linha descreve movimentos fluidos e
cadências que vão servir como meio de estruturação de percursos afectivos ou
viagens no tempo .
Tentativa de reter, prolongar
e eternizar sensações em divagações suscitadas pelo lirismo decorativo.
A provocação nas obras de
Graça Martins passa pela exigência de tornarmos consequentes as nossas reacções.
As imagens podem ser totalmente inocentes ou perversas, isso depende de nós.
Teremos que enfrentar a nossa serenidade ou perturbação.
Diria que com Graça Martins
nos encontramos perante uma estética do presságio. O convívio defensivo do ser
humano com a proximidade do abismo. Vozes sibilam, as palavras sussurradas
provocam arrepios. A reacção é a objectivação, a disciplina na atenção.
O pânico
da perda dá origem à expressão desesperada da posse. A repetição da imagem
previne o vazio, agarra o momento. O coleccionismo de imagens, permite a
construção do símbolo, ilude a vulnerabilidade perante a ruptura.
No conjunto de trabalhos a
grafite, a obsessão do pormenor torna inteligível a estranheza perante o enigma
dos outros.
O olhar é detido nos
acessórios, o pijama, o lenço, a renda e entretido nesses meandros nos guia para
dentro de nós próprios. Envolvendo-nos nas qualidades gráficas, a pintora aponta
o perigo da distracção face ao progressivo distanciamento do outro, pela
teimosia da descrição. Como se o desprendimento fosse irremediável, invertendo o
sentido de cada detalhe hipnótico. Pela intensa afirmação do desenho, pelo
grande plano cinematográfico, perdidos os pensamentos nos ritmos lineares, é
concretizada a distância.
Sentimentos vários e
simultâneos invadem cada momento... perigando certezas, desafiando identidades.
As imagens múltiplas referem também a perplexidade perante as diversas facetas
dos outros. Não negando a corporeidade da figura feminina representada,
descrevendo o seu rosto, indicando no tratamento dos volumes a sua androginia,
uma personagem nasce para o observador. Mas de imediato Graça Martins nos
confronta com um duplo, iluminado em vermelho-fogo, indicando a sua dimensão
suplementarmente ilusória através do suporte da própria representação.
Impõe-se o fragmento. O enigma não se esgota naquilo que é entregue e
intensifica-se o fascínio e a dor.
A capacidade de ver revela o
carácter misterioso das coisas e dos seres. Nada é estéril, nem nenhum vazio se
instala impunemente.
Cada incidente, cada forma podem tornar-se generosos,
portadores de sentidos. A intensidade do relacionamento com a vida depende da
disponibilidade para encontrar, para esperar, da empatia com os riscos. A pose
preparada, o olhar plano ou vago, a alma escondida.
A colagem, sendo novo recurso
expressivo documentado na obra mais recente, fundamenta-se no sentido global do
trabalho de Graça Martins. Em Coração Brilhante, obra inicial desta fase, Graça
Martins retira à pintura o cargo da descrição, decisão em contraste com todo o
seu percurso anterior, mantendo contudo na cor a coerência simbólica: o
vermelho-sangue, em pincelada gestual, envolve as rosas, belíssimas na sua
artificialidade, tratadas em monocromia intencionalmente mórbida.
A utilização dos dois níveis
de representação e transcrição (que são também dois níveis de observação e dois
níveis de compreensão) torna-se, nas obras sequentes, significativa em si mesma,
alargando as experiências perceptivas, diferenciando interpretações, expandindo
a capacidade comunicativa. São trabalhadas conexões através da diferença de
tratamento plástico, permitindo compreender os processos de selecção e
valorização, unindo os mundos das representações. |
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O CORPO E O ROSTO NA PINTURA DE GRAÇA MARTINS -EDUARDA CHIOTE
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"(...) Pintora de rostos e corpos
devorados pela insonoridade que apaga volumes para se apoderar de minuciosos
ritmos interiores e aquáticos que um grafismo incisivo arranca da obscura,
confusa claridade do desejo, potencializando zonas eróticas de particular
sensibilidade - a linha grave, rigorosa, de uma clavícula ou de um ombro; a
aparição de um seio ou o desabrochar de um lábio - que são outras tantas
descodificações de um mundo original; Graça Martins, permanece, neste seu actual
despojamento, fiel ao preâmbulo tumultuoso das bonecas: a um jogo de espelhos e
de imagens cúmplices, apenas só, da mulher e seus reflexos.
Há sob um sedutor e perigoso
decorativo, um provocatório figurar a figura. Um recriar de ambientes internos e
intimistas como "leit-motiv" respiratório e musical da pintura. Há
mesmo um ritual que insidiosamente se desoculta da técnica; do tratamento e
humidade da cor; da textura; da definição dos espaços ;da memória imobilizada;
da disciplina de um traço sem ruptura.(...)" |
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Eduarda Chiote, Jornal de Notícias, 16.3.1982 |
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A GRAFITE TAMBÉM É ARTE - MARGARIDA BOTELHO
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"(...) Fascinada pela figura
humana, Graça Martins reabilita a tradição de uma linguagem pictórica a preto e
branco estimando o ser vivo de maneira imensamente pura. Isto é nítido nestes
desenhos. (...) As personagens revestem-se de grande importância e por isso
fragmenta-as, para que cada uma das suas partes possa vir a ser bem
absorvida.(...)
O atraente nesta obra é
que tudo parece justapor-se e, ao mesmo tempo, afastar-se. Cada figura tem a sua
linguagem própria e a sua própria autonomia, embora reajam sempre em função do
conjunto, possuindo cada imagem uma verdadeira intenção independente de qualquer
outra, porque cada uma tem de de entrar em comunicação com o porquê do desenho." |
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Margarida Botelho, Diário de
Notícias, 30.7.1991 |
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O NEGRO PÓ DA GRAFITE - ISABEL DE SÁ
Texto publicado no catálogo
da exposição O NEGRO PÓ DA
GRAFITE de GRAÇA MARTINS na Galeria Barata, Lisboa, 1991
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"Nestes
desenhos há o rigor de uma técnica elaborada até ao limite e o desvio de uma
ideia. A fragmentação dos corpos, o veneno da luz que atinge um rosto, o olhar
confundindo-se com o negro pó da grafite ou ainda a sombra que anoitece nos
cabelos evocam a ambiguidade do discurso. Aproximando-se do real, a modernidade
destes desenhos é a sua individuação - uma trajectória singular traçada
desde o primeiro momento. A "área cromática"do cinza é neles plenamente
explorada com a sensibilidade de quem sabe o que é a massa poderosa de um corpo.
O despojamento, a beleza, a
sensualidade na sua extrema depuração ocupam o espaço do desenho deixando, no
entanto, intacta a sua pureza. A envolvência dos sentidos é ritualizada,
construída em volta de uma cena única. |
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sleeping beauty- pintura de graça martins, galeria são mamede - valter hugo mãe
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| os trabalhos planos de graça martins são delicados e ousados. os rostos das suas
personagens têm algo de perverso, como por vezes só a beleza intensa consegue
ser perversa, por apelar ao nosso desejo. |
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PINTURA DE GRAÇA MARTINS - FERNANDO PERNES |
"(...)
Erotismo e intimismo são expressões que cruzadamente percorrem esta exposição
cuja dimensão erótica suscita legítimas referências ao decadentismo romântico e
freudeano de grandes vienenses do princípio do século, como Klimt, Kubin ou Egon
Schiele. Também tangencialmente nos pode trazer lembranças das inquietações
lúbricas de Balthus ou o sadismo das bonecas de Hans Bellmar. (...)" |
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Fernando Pernes, Jornal de Notícias, 24.7.1979 |
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Graça Martins : Sleeping Beauty ( 2004) - João Borges
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Qualquer texto com referências biográficas começaria
por dizer que Graça Martins nasceu em 1952, mas o ano em que nasceu e
a consequente idade não parecem influenciar o trabalho da artista, na
medida em que não reflectem um envelhecimento enquanto pessoa. A base
do trabalho desta artista plástica é a sua capacidade de olhar para o
que a rodeia e de se conseguir identificar em tudo isso. Posto isto,
não é de estranhar que, as raparigas que pinta, retratando ao
mesmo tempo as realidades urbanas contemporâneas, não sendo
auto-retratos, não perdem a evidente carga autobiográfica.
Se
quisermos dividir o seu trabalho em fases, de forma a traçar uma
evolução, podemos dizer que, primeiramente, havia um primado do
desenho que acabava por proporcionar uma abundância de pormenores e um
perfeccionismo obsessivo ( não no sentido pejorativo). Aqui se
inserem, por exemplo, as suas características figuras em pijama, onde a
cabeça é eliminada, de forma a concentrar a atenção do espectador na
expressão das riscas e das curvas dos tecidos. Iriam ser precisamente
estes desenhos, a grafite, que dariam a Graça Martins o 1º
Prémio do Bicentenário da Invenção do Lápis, concorrendo com cerca de
700 candidatos. E não ao acaso. A astúcia com que domina a técnica vem
de facto mostrar que só podemos estar perante uma postura artística
prodigiosa. |
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Nesta tendência mais "desenhista"
enquadram-se também os inúmeros retratos de escritores como os poetas
Eugénio de Andrade, Isabel de Sá, Florbela Espanca ou Rimbaud. As capas
de livros que faz, também, desde os anos 70, marcam um registo ainda
mais poético do desenho de Graça Martins. Contam-se as capas para
livros de Isabel de Sá, Maria Teresa Horta, ente outros.
Numa fase
mais recente, o trabalho evoluiu no sentido da simplificação. Num
registo ligado à influência da Pop Art, continua a retratar as
suas características meninas, sempre no sentido de evidenciar alguma
ideia. Como feminista que é, os seus trabalhos remetem-nos
frequentemente para temáticas ligadas à condição feminina. Olhemos para
"Silence", em que uma mulher de beleza extraordinária se resigna ao
silêncio. Nestas séries, ainda que haja um equilíbrio entre pintura e
desenho, não deixa de se notar a mesma subtileza no traçar do desenho.
Também a sua formação em Design Gráfico tem acentuado algum gosto
pela Pop Art. Quer seja na inserção de fotografias nas telas (veja-se a
homenagem a "Rimbaud"), quer pela utilização de palavras ("Don't Forget
Me"), quer pelo desenho de objectos do quotidiano ("As Minhas Botas"). |
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"Sleeping Beauty" será , provavelmente, o
expoente máximo da fase actual da obra de Graça Martins. A fase em que
o desenho meticuloso se encontra com uma pintura simples de atmosfera
Pop Art, com uma tendência gráfica.
São raparigas de ambientes
urbanos, a denunciar problemas e condições ligados ao universo
feminino. Não no sentido de reinvindicar ou escandalizar, mas usando a
observação como forma de denúncia desses problemas ou ambientes. Não só
o silêncio, o resumo à beleza, os esteriótipos que vitimam a mulher,
como também outras mais poéticas, por exemplo, a beleza e simplicidade
de um olhar em "The Look" ou a vontade de expressão em "The Key". |
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The Look
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Mas, há algo de comum em todos
os trabalhos da colecção, seja qual for a sua temática: a sensibilidade
com que são abordados. O erotismo em cada uma das telas, simbologias e
sentimentos que o corpo e a sua expressividade nos mostram, mesmo nos
rostos encobertos:("The Nigth Of Cinderella", "Enquanto Não Se Esquece
O Passado"), em cada seio que se revela quase involuntariamente
("Sleeping Beauty"), em cada abraço ("Urban Teenagers"), na solidão ou
companhia de cada uma ("Lolitas"). São meninas
resignadas, emancipadas, desorientadas ou conscientes, acordadas
ou adormecidas. A isto pode-se chamar , sem perigo, poesia visual. |
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Lolitas
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A
utilização da cor insere também as personagens nesses estados de
alma. O azul calmo e nostálgico de "Enquanto Não Se Esquece O Passado",
o laranja quente em "The Look", O cor-de-rosa sensual de "The Nigth Of
Cinderella", os laranjas tropicais em "I've Got You Under My Skin".
É certo que a exposição realizou-se em 2004. Qualquer reposição deve ser vista por todos. |
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Enquanto Não Se Esquece O Passado |
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I' ve Got You Under My Skin |
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Graça Martins - Eurico Gonçalves |
"(...) Tendo participado na
exposição " O Erotismo na Arte Moderna Portuguesa" esta jovem artista do Porto
assume nos seus desenhos, guaches e gravuras, esse tema inesgotável e universal,
cuja força subversiva, transgressora e transformadora choca, inevitavelmente,
com a moral burguesa e com qualquer "ordem social estabelecida".
No caso de Graça Martins a
suavidade da linha, aliada à subtil harmonia do colorido, desenvolve uma espécie
de arte "deco", extremamente sensível e essencialmente gráfica, que é também a
ilustração poética de cenas idílicas, erótico-sensuais, de corpos lascivos,
delicados, efeminados e adornados. |
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Eurico Gonçalves,
Diário Popular, 2.11.1978 |
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A AUSÊNCIA DO ROSTO - ISABEL TAVARES |
Texto publicado no catálogo
da exposição A
AUSÊNCIA DO ROSTO de GRAÇA MARTINS na Galeria Labirintho, Porto, 1991
"Poder-se-ia falar de um
múltiplo desvio, de um olhar voyeurista ou fetichista. O enquadramento
delimitador de fragmentos do corpo, da sua solidão, evidencia uma visão
depuradora: limpos de qualquer excesso, os desenhos dão-nos os momentos de maior
fulgor. Na ausência do rosto o corpo emerge e prevalece como entidade, torna-se
a única personagem numa silenciosa coreografia ritualizada de encontros e
separações. A identidade é adquirida de um modo infinitamente plural, pois na
sua indefinição e ambiguidade os corpos universalizam-se, tornam-se uma espécie
de obra aberta, admissora de múltiplas leituras. Receptivos, acolhem secreta e
discretamente os nossos próprios fantasmas, tornando-nos cúmplices da
singularidade do universo de Graça Martins." |
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A VIDA DAS BONECAS - MARIA ANTÓNIA FIADEIRO
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É pintora, dá aulas de
Educação Visual, Desenho e dedica-se "às coisas gráficas". Fez, aliás, em 1977, um dos
primeiros cursos de Design/Arte Gráfica que existiram em Portugal, na Faculdade
de Belas Artes da Universidade do Porto. As coisas gráficas estão ligadas aos
livros e às revistas de poesia. Encostados, numa estante da sala de estar, estão
postais com fotos de Rimbaud, Marguerite Yourcenar. Fez ela própria retratos de
Rimbaud, Florbela Espanca, Fernando Pessoa, Virgínia Woolf, que tem na parede em
frente da sua mesa de trabalho de abas de estilo inglês, com uma cadeira de
estilo, onde, todo o material necessário, pincéis e lápis, grafites, estão
arrumadíssimos, aliás como toda a sala. O atelier está na casa duplex mas ,
enquanto pinta, pode estar a cozinhar uma galinha de caril. A pintura para a
Graça Martins está muito misturada com a sua vida e não sonha em dedicar-se
exclusivamente à pintura. São figuras de mulheres, com acentuada androgenia, a
maior parte dos seus temas. Figuras femininas em estado de desejo,
contemplativas ou contempladas, desnudadas, encobertas, reclinadas, adormecidas,
despertas, seduzidas e sossegadamente sedutoras, minuciosamente desenhadas a
tinta ou a grafite, que explodem docemente. Corpos que se deixam ligar por
faixas, lençóis ou panos brancos, quais ligaduras umbilicais, às vezes sádicas
cordas, rostos delineados em todas as formas, quase cuidadosamente
maquilhados,(...)
"O Negro Pó da Grafite" foi
uma exposição que fez, "a fase dos pijamas", com que ganhou o primeiro prémio de
Desenho da Cooperativa Árvore, em 1990, com desenhos a grafite e patrocinada
pela fábrica de lápis Viarco.
Pinta devagar e vagarosamente
de propósito. Já vários quadros estavam a encaixilhar e no cavalete, "A Manta de
Freud", que servia de fundo e de título à composição, também destinada à sua última exposição
na Galeria Degrau, do Porto, a tela ainda esperava pelo fino, suave e rigoroso
pincel de Graça Martins, que se comprazia, sem pressas. Afixado, no cimo do
cavalete, uma citação de Klein:"Se eu pintasse o que vocês conhecessem,
aborrecia-vos; se pintasse o que eu sei, aborrecia-me; é por isso que pinto o
que ignoro."
Graça Martins nasceu em Vila
do Conde, em 1952. Em casa , o pai, Martins Lhano, pintor que dava aulas de
pintura e de esmalte numa escola de Artes Decorativas no Porto, tinha um atelier cheio de muflas (fornos para vidrar o
esmalte)."Toda a vida cresci e o meu pai pintava, tinha acesso a livros ,
exposições do meu pai e conversas muito ligadas à arte"(...)
"Quando comecei a pintar, a
expor, em 1977, iniciei uma temática ligada à infância. As bonecas deram lugar a
crianças com bonecas. Depois veio a fase dos adolescentes com os seus desejos, o
crescimento de mim e assim tenho continuado. Ao certo, ao certo sabe que" tudo
começou pela vida das bonecas". |
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